A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) divulgou uma nota de repúdio contra as declarações do procurador-geral de Justiça do estado, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, sobre a prisão da advogada Deolane Bezerra.
O procurador-geral afirmou que a prisão teria “caráter pedagógico” para que jovens não queiram “ser advogados do PCC”. A fala ocorreu durante entrevista coletiva sobre a operação, na quinta-feira, quando ele disse que a ação teria “efeito inibitório”.
A OAB-SP classificou a declaração como incompatível com o papel institucional do Ministério Público. Segundo a entidade, a fala representa uma afronta às prerrogativas da advocacia, à ampla defesa e ao devido processo legal garantidos pela Constituição. “A Constituição Federal assegura que nenhuma pessoa ficará sem defesa técnica, sendo a advocacia função essencial à administração da Justiça”, diz um trecho da nota.
A nota afirma que criminalizar ou estigmatizar advogados em razão dos clientes que representam significa confundir a figura do defensor com a do jurisdicionado, prática incompatível com o Estado Democrático de Direito. “O advogado não se confunde com seu cliente. Defender não é compactuar”, afirmou a entidade.
Em audiência de custódia, a influenciadora alegou que foi detida no exercício da profissão. “Por uma quantia de R$ 24 mil depositada em minha conta, por um cliente que consta no próprio relatório da polícia o meu acompanhamento ao cliente”, afirmou.
A OAB-SP disse que declarações como essa criminalizam a advocacia criminal e enfraquecem garantias constitucionais. A entidade afirmou que o exercício da profissão não pode ser alvo de intimidação institucional e cobrou responsabilidade no exercício de funções públicas. Procurado, o Ministério Público de São Paulo ainda não se pronunciou até a publicação deste texto.
Prisão da influenciadora
Deolane foi presa na quinta-feira sob suspeita de integrar um esquema milionário de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. A investigação teve origem em bilhetes e manuscritos atribuídos à facção, apreendidos há sete anos em um presídio de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo.
A polícia afirmou que a transportadora Lopes Lemos Transportes Ltda. era uma “criação da própria facção” para operar o “branqueamento de recursos ilícitos”. Segundo os investigadores, Deolane foi identificada como beneficiária de valores da empresa e seria usada como uma espécie de “caixa do crime organizado”.
A defesa de Deolane afirmou que ela é inocente e criticou a operação. Os advogados classificaram as medidas como “desproporcionais” e disseram que os fatos serão esclarecidos “em momento oportuno”. Durante a audiência de custódia, a defesa pediu a libertação da influenciadora alegando que ela tem uma filha menor de 12 anos.
A defesa também recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), mas o ministro Flávio Dino disse não ver “manifesta ilegalidade” na prisão. Dino argumentou que não cabe reclamação ou habeas corpus de ofício, dado que ainda há outras instâncias para o processo percorrer antes de chegar ao STF.
